Surgiu na internet o mito de que a Galiza seria um dos hotspots do haplogrupo R1b na Europa. Inclusive, é comum divulgarem na rede mapas como o seguinte:
Haplogrupo R1b na Europa (fonte: progael.com).
No entanto, o mapa acima contém uma séria falha: dá a entender que o haplogrupo R1b alcança no noroeste da Península Ibérica uma frequência igual ou superior a 80%, o que não é verdade.
O marcador R1b na Galiza NÃO excede os 80%!
Com base em estudos acadêmicos, as frequências das linhagens patrilineares detectadas na Galiza são as seguintes:
Se o R1b na Galiza não chega nem aos 65%, que dirá ultrapassar os 80%! Caso alguém conheça algum estudo acadêmico em que o marcador R1b na Galiza realmente exceda os 80%, que o cite.
Sabemos com base em fontes literárias antigas, evidência arqueológica e dados linguísticos que o mundo celta em sua máxima extensão (final do primeiro milênio a.C.) abrangia: de norte a sul, desde a Escócia até o norte da Itália; bem como, de oeste a leste, desde a Irlanda e a Hespanha até a Tchecoslováquia; chegando inclusive, fora da Europa, à Ásia Menor (Green, 1995, p. 7).
O antigo mundo celta em sua máxima extensão (Robb, 2002, p. 235, fig. 14.2).
No que diz respeito ao âmbito da Península Ibérica, são muitos os especialistas que sustentam a ideia de que, mesmo já desde o final da idade do bronze, amplas áreas de sua geografia, principalmente o centro-leste, o centro, o noroeste e o sudoeste, foram, durante séculos, habitadas por povos célticos ou proto-célticos (Alberro, 2001, p. 12).
Dentre os antigos povos celtas peninsulares, considera-se mais bem estudados os assim chamados celtiberos. A área que ocupavam, conhecida como Celtibéria, englobava o Sistema Ibérico e as terras altas da Meseta Oriental, bem como os territórios localizados na margem setentrional do Vale Médio do Ebro ou mesmo toda a Meseta de um modo geral (Alberro, 2001, p. 12-13).
Mapa da Península Ibérica com o núcleo da cultura celtibera em evidência e os nomes das principais tribos célticas (Cunliffe, 1997, p. 136, fig. 106).
Concentraremos nossa atenção a partir de agora no extremo norte-ocidental da Península Ibérica, ao que se atribui a seguinte cronologia:
Cronologia atribuída ao noroeste peninsular (González Ruibal, 2004b, p. 116).
Denominado pelos romanos Gallaecia, isto é, basicamente o norte de Portugal mais a Galiza e áreas adjacentes (González Ruibal, 2004b, p. 115-116), o noroeste compunha, junto com a Meseta Oriental e o sudoeste, o grupo das três zonas peninsulares onde os geógrafos e historiadores greco-latinos localizavam de maneira explícita a presença de populações célticas (Lorrio e Ruiz Zapatero, 2005, p. 179 e 184).
O noroeste da Península Ibérica: entre o Atlântico e o Mediterrâneo (esquerda); fronteiras e capitais modernas (direita) (González Ruibal, 2004a, p. 288, fig. 1).
A Península Ibérica no sudoeste da Europa (González Ruibal, 2006, p. 147, fig. 1).
Etnias da Península Ibérica segundo Estrabão (Cruz Andreotti, 2007, p. 266, fig. 1).
De acordo com as descrições que, a respeito do noroeste da Península Ibérica, oferecem Plínio, Pompônio Mela e Estrabão, localizava-se no litoral atlântico ibérico uma série de populações compreendidas entre o curso do rio Douro e a costa norte peninsular – como, por exemplo, os ártabros, nérios, supertamarcos e prestamarcos – as quais os autores antigos denominavam keltikoí ou celtici, ou seja: célticos (González García, 2011, p.119 e 122).
Localização aproximada dos populi da Gallaecia (Dopico Cainzos e Rodríguez Alvarez, 1992, p. 397, fig. 1).
Material linguístico
Além da informação deixada pelos autores clássicos, a toponímia antiga e moderna documenta a presença de línguas célticas no noroeste peninsular (González García, 2011, p. 120):
Fontes antigas – como, por exemplo, inscrições, legendas em moedas e nomes de povos e lugares contidos em documentos clássicos – sugerem que pela época da ocupação romana, ao fim do primeiro milênio a.C., foram faladas línguas célticas na Grã-Bretanha, na Gália, no norte da Itália, na Hespanha e no centro e leste da Europa (Green, 1995, p. 4). Dada a distribuição predominantemente ocidental de topônimos célticos antigos, sustenta-se a noção de que os celtas clássicos ocupavam mais densamente o oeste europeu (Oppenheimmer, 2012, p. 125).
Evidência de onde foi feito uso de línguas célticas em tempos clássicos: mapa da Europa e Ásia Menor com as porcentagens, indicadas através de contornos, de topônimos célticos antigos. As frequências mais altas localizavam-se na Gália Céltica, na Britânia e na Península Ibérica (Oppenheimer, 2006, p. 60, fig. 2.1b).
Durante a idade do ferro desenvolveu-se na Galiza aquilo que conhecemos como “cultura castreja”, assim denominada em razão de uma forma em especial de assentamento que, devido à sua singularidade e abundância, constituía a manifestação mais significativa daquela civilização: o castro (Villares, 1991, p. 23), o qual se define fundamentalmente como um povoado fortificado em altura (Lorrio, 1991, p. 26).
Castro de Trega, Pontevedra (Alberro, 2001, p. 24, fig. 14).
Mapa da região noroeste da Península Ibérica mostrando a delimitação da área dos castros (Pacheco Ruiz, 2009, p. 6, fig. 3).
Com a finalidade de corroborar a natureza céltica da cultura castreja, poderíamos recorrer aos nomes em briga, brica ou dunum, os quais, geralmente admitidos como célticos, irradiavam-se por toda a Gallaecia (López Cuevillas, 1952, p. 11).
Onomástica em briga, brica e dunum distribuída pela Gallaecia (López Cuevillas, 1952, p. 11).
Basicamente um sinônimo de –dunum, –briga possui, em língua céltica, o significado de “lugar elevado” ou “fortaleza” (García Quintela, 2005, p. 509). Embora seja muito mais numeroso na Península Ibérica, o sufixo –briga, relacionado a brig (genitivo breg), termo do irlandês antigo que quer dizer “colina”, encontra-se bem representado nos territórios célticos continentais (Lorrio e Ruiz Zapatero, 2005, p. 187).
Distribuição de topônimos célticos em –briga: 1, fonte clássica; 2, fonte pós-clássica (Piggott, 1965, p. 172, fig. 95).
Distribuição de topônimos célticos em –dunum: 1, fonte clássica; 2, fonte pós-clássica (Piggott, 1965, p. 173, fig. 96).
Dentro do território peninsular, o elemento toponímico –dunum, correspondente ao estrato linguístico mais recente, conta com escassos e duvidosos testemunhos orientais além de um testemunho preciso: Caladunum, localizado no noroeste. Quanto ao elemento –briga, geralmente tomado como indício de uma celticização mais antiga, assinalamos que, embora se faça notar em quase toda a Península Ibérica (citemos, entre outros, os exemplos em Arcobriga, Nemetobriga e Tongobriga), prevalecem no oeste peninsular os mais antigos compostos documentados (de Bernardo Stempel, 2002, p. 106).
Principais nomes de lugar célticos da Península Ibérica: topônimos terminados em –briga (Lorrio e Ruiz Zapatero, 2005, p. 187, fig. 7).
A celticização do noroeste peninsular desvela-se ainda através da profusa toponímia moderna em –bre, que como se sabe, deriva das formas antigas em –bris e –bri, por sua vez aparentadas à forma céltica em –briga (González García, 2011, p. 120).
Distribuição dos topônimos galegos de origem pré-romana em –bre (González García, 2011, p. 123, fig. 2).
Além dos topônimos terminados em –bre, conservam-se na Galiza muitos mais nomes de lugar de origem céltica, bem como muitos são os etnônimos célticos entre o restante de populações do noroeste da Península Ibérica mencionadas pelos autores antigos e fontes epigráficas (González García, 2011, p. 124).
Conclusão
Podemos estar realmente seguros de que houve celtas onde hoje é a Galiza? Se aquilo que entendemos por “célticos” corresponde aos povos assim denominados pelos autores greco-latinos, bem como àqueles que pertenciam ao grupo linguístico definido como “céltico” pelos investigadores modernos, a resposta deve ser afirmativa.
Bibliografia
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Em 1920 era criado o grupo Nós, coletivo nacionalista galego composto por intelectuais sob a liderança de Vicente Risco y Agüero, ativo militante político de sua época. Risco levara adiante os mitos surgidos no século XIX a respeito das origens galegas, segundo os quais, junto com as Highlands escocesas, a Ilha de Man, a Irlanda, o País de Gales, a Cornualha e a Bretanha Menor, a Galiza (da qual Risco considerava Portugal parte) se incluiria dentro do grupo das chamadas “nações celtas” (Díaz-Andreu, 1995, p. 53).
Entretanto, o fato de não haver sido conservada uma tradição linguística céltica na Galiza tornou impossível sua plena aceitação como país-membro da Celtic League (“Liga Céltica”) (Robb, 2002, p. 238), organização internacional nascida com o objetivo de dar apoio às seis nações celtas reconhecidas como tal (Irlanda, Escócia, Man, Gales, Cornualha e Bretanha) em sua luta por defesa ou conquista de liberdade política, cultural, social e econômica (Celtic League, 1973, p. 1).
A verdade é que a Galiza perdera a língua céltica ali falada quando os romanos, da mesma forma que fizeram com a Gália, conquistaram-na e impuseram-lhe o latim (Alberro, 2008, p. 1006), do qual é filho o idioma que, junto com outros fatores – território diferente, vida econômica peculiar e hábitos psicológicos refletidos numa cultura autóctone –, a identifica como nação: o galego (Castelao, 1944, p.50-53).
Contudo, na década de 80 a Celtic League admitira a Galiza, Astúrias e possivelmente a Cúmbria como pelo menos “terras de herança céltica” (Robb, 2002, p. 238).
Os “espaços célticos” hoje: línguas, nações e “terras de herança céltica” (Robb, 2002, p. 230, fig. 14.1).
Há mais de 100 anos o celtismo se faz presente no que diz respeito à maioria das formulações sobre a história e a identidade da Galiza. No entanto, nunca se chegou a um consenso sobre o quão importantes foram os antigos celtas em relação ao passado galego e de que maneira a alegada herança céltica galega se manifesta modernamente (Pereira, 2011).
Em 1987, a Celtic League, através da edição de número 59 de seu informativo (a revista Carn), comunicava reconhecer não só a sobrevivência de muitos elementos de antiga influência céltica na Galiza e em Astúrias, como também o fato de que alguns dos habitantes dessas regiões de passado céltico continuavam considerando “celtas” a si próprios. Na mesma notificação, a liga das nações celtas ainda expressava amizade aos galegos e asturianos, encorajando-os em seus esforços por desenvolver os aspectos célticos de sua herança cultural (Celtic League, 1987, p. 2).
Resta-nos agora descobrir em quê precisamente consistiria o legado céltico que se diz ter sido herdado pelo povo galego e se existiria, ao menos de um ponto de vista que não seja estritamente linguístico, algum vínculo especial que una a Galiza e os modernos “países celtas” dentro de uma mesma comunidade histórico-culturalmente coesa que se diferencie do resto da Europa.
por Daniel Rivas
Bibliografia
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CASTELAO, A.R. Sempre en Galiza. Vigo: Editorial Galáxia, 2013; 1º edição: 1944.
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Penso que nós, como nacionalidade, temos grandes problemas que resolver, que ninguén pode facelo por nós. O principal, ou sexa, o primeiro, é a soberanía do noso xênio racial, que se vén mostrando ao longo da historia. A nosa raza ten as súas raíces na nación celta, e non hai máis, somos pobos coma o bretón, o irlandés o galés ou o escocés.
(Comandante Soutomaior)*
En España, además del castellano, existe un idioma vasco (más antiguo que el griego, el latín o el árabe), el catalán y el gallego. Hay una cultura catalana, vasca y gallega. Sus canciones y danzas se confunden con los primeros vestigios de civilización y de historia oral y escrita, y su propia mística religiosa saturada de paganismo, especialmente en Galicia y el País Vasco.
(Albino Artigues)**
O Povo Galego é dono de umha tradiçom popular muito rica. Parte de umhas raízes pré-romanas pagás que arreigárom na religiosidade cristá e que actualmente modulam umha cultura popular que se nutre de contos e lendas baseados tanto na natureza, no trabalho, como em elementos mágicos e sobrenaturais.
(Nós-UP)***