Os celtas na Galiza

Sabemos, com base em fontes literárias antigas, evidência arqueológica e dados linguísticos, que o mundo celta, em sua máxima extensão (final do primeiro milênio a.C.), abrangia desde a Irlanda e a Hespanha no oeste e a Escócia no norte até a Tchecoslováquia no leste e o norte da Itália no sul, chegando inclusive, fora da Europa, à Ásia Menor (Green 1995).

O antigo mundo celta em sua máxima extensão (Robb 2002: fig. 14.2).

No que diz respeito ao âmbito da Península Ibérica, são muitos os especialistas que sustentam a ideia de que, mesmo já desde o final da idade do bronze, amplas áreas de sua geografia, principalmente o centro-leste, o centro, o noroeste e o sudoeste, foram, durante séculos, habitadas por povos célticos ou proto-célticos (Alberro 2001).

Dentre os antigos povos celtas peninsulares, considera-se que os mais bem estudados são os assim chamados celtiberos. A área que ocupavam, conhecida como Celtibéria, englobava o Sistema Ibérico e as terras altas da Meseta Oriental, bem como os territórios localizados na margem setentrional do Vale Médio do Ebro ou mesmo toda a Meseta de um modo geral (Alberro 2001).

Mapa da Península Ibérica com o núcleo da cultura celtibera em evidência e os nomes das principais tribos célticas (Cunliffe 1997: fig. 106).

Concentraremos nossa atenção a partir de agora no extremo norte-ocidental da Península Ibérica:

Cronologia atribuída ao noroeste peninsular (González Ruibal 2004b).

Denominado pelos romanos Gallaecia, isto é, basicamente o norte de Portugal, a Galiza e áreas adjacentes (González Ruibal 2004b), o noroeste compunha, junto com a Meseta Oriental e o sudoeste, o grupo das três zonas peninsulares onde os geógrafos e historiadores greco-latinos localizavam de maneira explícita a presença de populações célticas (Lorrio e Ruiz Zapatero 2005).

O noroeste da Península Ibérica: entre o Atlântico e o Mediterrâneo (esquerda); fronteiras e capitais modernas (direita) (González Ruibal 2004a: fig. 1).

A Península Ibérica no sudoeste da Europa (González Ruibal 2006: fig. 1).

Etnias da Península Ibérica segundo Estrabão (Cruz Andreotti 2007: fig. 1).

De acordo com as descrições que, a respeito do noroeste da Península Ibérica, oferecem Plínio, Pompônio Mela e Estrabão, localizava-se no litoral atlântico ibérico uma série de populações compreendidas entre o curso do rio Douro e a costa norte peninsular – como, por exemplo, os ártabros, nérios, supertamarcos e prestamarcos – as quais os autores antigos denominavam keltikoí ou celtici, ou seja: célticos (González García 2011).

Localização aproximada dos populi da Gallaecia (Dopico Cainzos e Rodríguez Alvarez 1992: fig. 1).

Material lingüístico

Além da informação deixada pelos autores clássicos, a toponímia antiga e moderna documenta a presença de línguas célticas no noroeste peninsular (Prósper 2002 apud González García 2011):

Fontes antigas – como, por exemplo, inscrições, legendas em moedas e nomes de povos e lugares contidos em documentos clássicos – sugerem que pela época da ocupação romana, ao fim do primeiro milênio a.C., foram faladas línguas célticas na Grã-Bretanha, na Gália, no norte da Itália, na Hespanha e no centro e leste da Europa (Green 1995). Dada a distribuição predominantemente ocidental de topônimos célticos antigos, sustenta-se a noção de que os celtas clássicos ocupavam mais densamente o oeste europeu (Oppenheimmer 2012).

Evidência de onde foi feito uso de línguas célticas em tempos clássicos: mapa da Europa e Ásia Menor com as porcentagens, indicadas através de contornos, de topônimos célticos antigos. As frequências mais altas localizavam-se na Céltica, na Britânia e na Península Ibérica (Oppenheimer 2006: fig. 2.1b).

Durante a idade do ferro desenvolveu-se na Galiza aquilo que conhecemos como “cultura castreja”, assim denominada em razão de uma forma em especial de assentamento que, devido à sua singularidade e abundância, constituía a manifestação mais significativa daquela civilização: o castro (Villares 1991), o qual se define fundamentalmente como um povoado fortificado em altura (Lorrio 1991).

Castro de Tegra, Pontevedra (Alberro 2001: fig. 14).

Mapa da região noroeste da Península Ibérica mostrando a delimitação da área dos castros (Pacheco Ruiz 2009: fig. 3).

Com a finalidade de corroborar a natureza céltica da cultura castreja, poderíamos recorrer aos nomes em briga, brica ou dunum, os quais, geralmente admitidos como célticos, irradiam-se por toda a Gallaecia (López Cuevillas 1952).

Onomástica em briga, brica e dunum distribuída pela Gallaecia (López Cuevillas 1952).

Basicamente um sinônimo de –dunum, –briga possui, em língua céltica, o significado de “lugar elevado” ou “fortaleza” (García Quintela 2005). O sufixo, relacionado ao termo do irlandês antigo brig, genitivo breg, que quer dizer “colina”, embora seja muito mais numeroso na Península Ibérica, encontra-se bem representado nos territórios célticos continentais (Lorrio e Ruiz Zapatero 2005).

Distribuição de topônimos célticos em –briga: 1, fonte clássica; 2, fonte pós-clássica (Piggott 1965: fig. 95).

Distribuição de topônimos célticos em –dunum: 1, fonte clássica; 2, fonte pós-clássica (Piggott 1965: fig. 96).

Dentro do território peninsular, o elemento toponímico –dunum, correspondente  ao estrato linguístico mais recente, conta com escassos e duvidosos testemunhos orientais, além de um testemunho preciso: Caladunum, localizado no noroeste. Quanto ao elemento –briga, geralmente tomado como indício de uma celticização mais antiga, assinalamos que, embora se faça notar em quase toda a Península Ibérica (citemos, entre outros, os exemplos em Arcobriga, Nemetobriga e Tongobriga), prevalecem no oeste peninsular os mais antigos compostos documentados (de Bernardo Stempel 2002).

Principais nomes de lugar célticos da Península Ibérica: topônimos terminados em –briga (Lorrio e Ruiz Zapatero 2005: fig. 7).

A celticização do noroeste peninsular desvela-se ainda através da profusa toponímia moderna em –bre, que como se sabe, deriva das formas antigas em –bris e –bri, por sua vez aparentadas à forma céltica em –briga (González García 2011).

Distribuição dos topônimos galegos de origem pré-romana em –bre (González García 2011: fig. 2).

Além dos topônimos terminados em –bre, conservam-se na Galiza muitos mais nomes de lugar de origem céltica, bem como muitos são os etnônimos célticos entre o restante de populações do noroeste da Península Ibérica mencionadas pelos autores antigos e fontes epigráficas (González García 2011).

Conclusão

Podemos estar realmente seguros de que houve celtas onde hoje é a Galiza? Se aquilo que entendemos por “célticos” corresponde aos povos assim denominados pelos autores greco-latinos, bem como àqueles que pertenciam ao grupo linguístico definido como “céltico” pelos investigadores modernos, a resposta deve ser afirmativa.

por Daniel Rivas

Bibliografia

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VILLARES, R. História da Galiza. Lisboa: Livros Horizonte, Lda., 1991.

 

 

 

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Galiza: nação celta?

Em 1920 era criado o grupo Nós, coletivo nacionalista galego composto por intelectuais sob a liderança de Vicente Risco y Agüero, ativo militante político de sua época. Risco levara adiante os mitos surgidos no século XIX a respeito das origens galegas, segundo os quais, junto com as Highlands escocesas, a Ilha de Man, a Irlanda, o País de Gales, a Cornualha e a Bretanha Menor, a Galiza (da qual Risco considerava Portugal parte) se incluiria dentro do grupo das chamadas “nações celtas” (Díaz-Andreu 1995).

Entretanto, o fato de não haver sido conservada uma tradição linguística céltica na Galiza tornou impossível sua plena aceitação como país-membro da Celtic League (“Liga Céltica”) (Robb 2002), organização internacional nascida com o objetivo de dar apoio às seis nações celtas reconhecidas como tal (Irlanda, Escócia, Man, Gales, Cornualha e Bretanha) em sua luta por defesa ou conquista de liberdade política, cultural, social e econômica (Celtic League 1973).

A verdade é que a Galiza perdera a língua céltica ali falada quando os romanos, da mesma forma que fizeram com a Gália, conquistaram-na e impuseram-lhe o latim (Alberro 2008), do qual é filho o idioma que, junto com outros fatores – território diferente, vida econômica peculiar e hábitos psicológicos refletidos numa cultura autóctone –, a identifica como nação: o galego (Castelao 1944).

Contudo, na década de 80 a Celtic League admitira a Galiza, Astúrias e possivelmente a Cúmbria como pelo menos “terras de herança céltica” (Robb 2002).

Celtitude 01

Os “espaços célticos” hoje: línguas, nações e “terras de herança céltica” (Robb 2002: fig. 14.1).

Há mais de 100 anos o celtismo se faz presente no que diz respeito à maioria das formulações sobre a história e a identidade da Galiza. No entanto, nunca se chegou a um consenso sobre o quão importantes foram os antigos celtas em relação ao passado galego e de que maneira a alegada herança céltica galega se manifesta modernamente (Pereira 2011).

Em 1987, a Celtic League, através da edição de número 59 de seu informativo, a revista Carn, comunicava reconhecer a sobrevivência de muitos elementos de antiga influência céltica na Galiza e em Astúrias e que inclusive alguns dos habitantes dessas regiões de passado céltico continuavam considerando “celtas” a si próprios. Na mesma notificação, a liga das nações celtas ainda expressava amizade aos galegos e asturianos, encorajando-os em seus esforços por desenvolver os aspectos célticos de sua herança cultural.

Resta-nos agora descobrir em quê precisamente consistiria o legado céltico que se diz ter sido herdado pelo povo galego e se existiria, ao menos de um ponto de vista que não seja estritamente linguístico, algum vínculo especial que una a Galiza e os modernos “países celtas” dentro de uma mesma comunidade histórica e culturalmente coesa que se diferencie do resto da Europa.

por Daniel Rivas

Bibliografia

ALBERRO, M. Celtic Legacy in Galicia. In: ARNOLD, B. e ALBERRO, M. (eds.). e-Keltoi volume 6: The Celts in Iberian Peninsula. Center for Celtic Studies, University of Wisconsin-Milwaukee, 2008. p. 1005-1034. Disponível em: http://www4.uwm.edu/celtic/ekeltoi/volumes/vol6/6_20/alberro_6_20.html

CASTELAO, A.R. Sempre en Galiza. Vigo: Editorial Galáxia, 2013; 1º edição: 1944.

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______. 1987 Celtic League A.G.M. resolutions. In: Carn n° 59, 1987, p. 2.

DÍAZ-ANDREU, M. Archaeology and nationalism in Spain. In: KHOL, P.L. e FAWCETT, C. (eds.). Nationalism, Politics, and the Practice of Archaeology. Cambridge: Cambridge University Press, 1995. p. 39-56.

PEREIRA, F. A ‘celtomania’, mais umha vez? Portal Galego da Língua, 05 de Dezembro de 2011. Disponível em: http://www.pglingua.org/noticias/canal-aberto/3961-a-celtomania-mais-umha-vez

ROBB, J.G. A geography of Celtic appropriations. In: HARVEY, D.C., JONES, R., MCINROY, N. e MILLIGAN, C. (eds.). Celtic Geographies: Old cultures, new times. Londres: Routledge, 2002. p. 229-242.

Última revisão: 10 de abril de 2015

Epígrafes

Penso que nós, como nacionalidade, temos grandes problemas que resolver, que ninguén pode facelo por nós. O principal, ou sexa, o primeiro, é a soberanía do noso xênio racial, que se vén mostrando ao longo da historia. A nosa raza ten as súas raíces na nación celta, e non hai máis, somos pobos coma o bretón, o irlandés o galés ou o escocés.
(Comandante Soutomaior)*

En España, además del castellano, existe un idioma vasco (más antiguo que el griego, el latín o el árabe), el catalán y el gallego. Hay una cultura catalana, vasca y gallega. Sus canciones y danzas se confunden con los primeros vestigios de civilización y de historia oral y escrita, y su propia mística religiosa saturada de paganismo, especialmente en Galicia y el País Vasco.
(Albino Artigues)**

O Povo Galego é dono de umha tradiçom popular muito rica. Parte de umhas raízes pré-romanas pagás que arreigárom na religiosidade cristá e que actualmente modulam umha cultura popular que se nutre de contos e lendas baseados tanto na natureza, no trabalho, como em elementos mágicos e sobrenaturais.
(Nós-UP)***

*MARTÍNEZ, X. Memorias do exilio, do desarraigo e da emigración: Segunda carta inédita manuscrita do comandante Soutomaior “Na Galiza”. Confederación Intersindical Galega, Corunha, 02 de Abril de 2007. Disponível em: http://www.galizacig.com/actualidade/200704/xmc_segunda_carta_inedita_comandante_soutomaior.htm

**ARTIGUES, A. Lucha de clases y movimientos nacionales en España. Herrera de la Mancha: Editorial Contracanto, 1983.

***NÓS-UP. Welcome to Galiza: this is not Spain. 01 de Agosto de 2005. Disponível em: http://www.nosgaliza.org/principal.php?pag=lernot&id=582